5. BRASIL 15.8.12

1. O VICE PROBLEMA
2. PT PAGA A CONTA...
3. O GRANDE TESTE DAS GREVES
4. OS ESCOLHIDOS DE LULA
5. O ELO ENTRE DIRCEU E VALRIO
6. BRASIL CONFIDENCIAL - "DE VOLTA AOS COFRES"

1. O VICE PROBLEMA

PF investiga empresas fornecedoras de uniformes escolares que, com o aval de Alexandre Schneider, candidato a vice na chapa de Jos Serra, firmaram contratos superfaturados com a Secretaria de Educao
Claudio Dantas Sequeira 

CHAPA - Alexandre Schneider e Jos Serra: o vice precisa se explicar
 
Ao ser anunciado h dois meses como vice na chapa de Jos Serra na disputa pela Prefeitura de So Paulo, Alexandre Schneider logo assumiu a linha de frente dos ataques  gesto do candidato petista Fernando Haddad no Ministrio da Educao. A experincia de seis anos como secretrio municipal de Educao e sua formao em administrao seriam credenciais suficientes para a tarefa. O problema  que a gesto de Schneider tambm comea a ser alvo de srios questionamentos. A Polcia Federal investiga a atuao nacional de um cartel de empresas fornecedoras de uniformes escolares que, em So Paulo, atuou livremente com o aval de Schneider  um tucano-serrista que se converteu ao PSD de Gilberto Kassab.
 
O ponto de partida da investigao dessa suposta mfia dos uniformes  um prego realizado pela Secretaria de Educao em janeiro de 2009. O objetivo da concorrncia era comprar roupas para estudantes da rede municipal em kits compostos por camisetas, bermudas, meias, tnis, alm de jaquetas e calas em tactel e helanca. A PF encontrou indcios de que o prego foi manipulado num conluio entre as empresas Mercosul Comercial, Capricnio e Diana Paolucci S/A para controlar o limite dos lances. O resultado foi a vitria da Mercosul com um preo unitrio de R$ 117. Schneider homologou a concorrncia e encomendou um primeiro lote de 724.666 kits por R$ 84,7 milhes. Em agosto daquele ano, ele assinou aditivo ao contrato, para a compra de 20.461 kits por R$ 2,4 milhes. Um novo contrato com a Mercosul, para mais 727.631 kits, foi feito em dezembro.
 
Naquele momento, porm, o secretrio de Educao j estava de posse de uma pesquisa de mercado que indicava preos 46% abaixo dos praticados pela Mercosul, que numa licitao no Rio de Janeiro fez oferta de R$ 97,67 por kit. Caso tivesse aberto uma nova concorrncia, Schneider poderia ter economizado cerca de R$ 33,5 milhes aos cofres pblicos. No bastasse o provvel superfaturamento, a entrega dos uniformes, que so importados da China, atrasou. Pressionado, no ano seguinte Schneider contratou outra empresa, a LV Distribuidora. Para escapar da licitao, fez uma polmica adeso de ata de preos. Fontes da secretaria informaram  ISTO que a LV figurou no contrato, mas quem forneceu os uniformes foi a Mercosul.

SUSPEITA - Na sede da empresa que forneceu uniformes escolares para a Secretaria de Educao  encontrada uma pequena loja abandonada
 
Tudo isso poderia ser apenas um eventual equvoco de gesto, mas a PF descobriu que um contrato mantido entre a Mercosul e o Banco do Brasil garantia que todos os valores depositados pela Secretaria de Educao fossem redistribudos nas contas bancrias da Capricrnio e da Diana Paolucci. Agora, os agentes querem solicitar a quebra de sigilo dessas transaes para determinar o destino final desse dinheiro. A PF tambm estranhou o fato de que, no prego de 2009, a empresa, que tem sede em Santa Catarina, concorreu com o CNPJ da filial no Distrito Federal. No endereo da cidade-satlite de Samambaia  encontrado apenas um pequeno edifcio abandonado.
 
Consulta ao TSE revelou o destino de um outro repasse que refora a ligao da Mercosul com Schneider antes mesmo da assinatura do contrato com a Secretaria de Educao. Em outubro de 2008, a Mercosul fez quatro transferncias para a conta do diretrio nacional do PSDB, num total de R$ 300 mil. Naquele ano, Schneider era filiado ao PSDB, embora tivesse feito campanha para Kassab, em detrimento de Geraldo Alckmin (PSDB). Os scios da empresa tambm fizeram doaes pessoais para a campanha do vereador Goulart (ex-PMDB, hoje PSD), autor da lei que criou a obrigatoriedade do uso do uniforme na rede municipal de ensino.
 
Na investigao que corre em sigilo, a PF tambm descobriu que, antes do prego vencido pela Mercosul, o secretrio de Educao se reuniu com o grupo de empresrios que participaram da licitao. O encontro se deu na tabacaria Esch Caf, na alameda Lorena. Estavam presentes Julio Manfredini, da Capricrnio, Abelardo Paolucci, da Diana, e a dupla Antonio Borelli e Roberto Nakano, da Mercosul. Por isso, os agentes identificaram indcios de conluio. O encontro no foi isolado. Segundo funcionrios ouvidos por ISTO, os empresrios foram vistos frequentemente no gabinete do ento secretrio. Procurado por ISTO, o ex-secretrio e atual vice de Jos Serra no retornou os contatos at o fechamento da edio.


2. PT PAGA A CONTA...

... de advogados dos rus do mensalo, mas despesas no aparecem na contabilidade petista entregue ao TSE. As velhas prticas, como o caixa 2, se repetem no partido?
Izabelle Torres

 HONORRIO - Luiz Pacheco (acima), advogado de Jos Genoino, admite receber do PT
 
Apresena do antigo comando partidrio no banco dos rus por envolvimento no maior caso de corrupo da histria recente do Pas pode no ter alterado as prticas do PT. O partido parece seguir omitindo da Justia parte de suas despesas. Desta vez, a contabilidade suspeita se refere aos repasses aos advogados responsveis pela defesa de petistas envolvidos no mensalo. Com honorrios que variam entre R$ 600 mil e R$ 6 milhes, alguns advogados admitiram  ISTO que parte da fatura  paga pela legenda. As prestaes de contas do PT encaminhadas ao Tribunal Superior Eleitoral nos ltimos trs anos, no entanto, no incluem nenhuma referncia a pagamentos feitos a escritrios jurdicos que prestam servios aos personagens do escndalo.
 
Questionado, o presidente do PT, Rui Falco, disse que em sua gesto nenhum contrato foi assinado com advogados envolvidos na ao penal do mensalo. Ocorre que, segundo funcionrios do PT ouvidos por ISTO, parte dos recursos para ajudar na defesa dos rus sai do diretrio de So Paulo, abastecido financeiramente pelo PT nacional. Internamente, a conta que se faz  de que j foram desembolsados mais de R$ 3,5 milhes para a defesa de ex-caciques partidrios. O PT tem bancado, por exemplo, a defesa do ex-presidente da legenda Jos Genoino e do ex-tesoureiro Delbio Soares.

AJUDINHA - Arnaldo Malheiros (acima) diz que Delbio  pobre e precisa do partido
 
Genoino  representado no processo por Luiz Fernando Pacheco, que cobra em mdia R$ 1,2 milho para atuar em processos com a complexidade do mensalo. O partido tem ajudado, porque o Genoino no  rico, admite Pacheco, se referindo ao salrio de R$ 8,9 mil que Genoino recebe no Ministrio da Defesa. No caso de Delbio, o advogado Arnaldo Malheiros sustenta que ele  pobre e vive exclusivamente dos rendimentos de uma pequena imobiliria virtual. Malheiros acredita que a dificuldade financeira do cliente justifica a ajuda dada pelo PT. O que ningum sabe explicar, no entanto,  o motivo de a contribuio nunca ter aparecido na contabilidade petista.


3. O GRANDE TESTE DAS GREVES

Governo endurece o jogo, corta ponto, mas onda de greve dos servidores se alastra e presidenta Dilma passa a negociar reajustes por categoria
 Pedro Marcondes de Moura 

TUMULTO - PMs usam gs de pimenta para conter servidores que tentavam chegar  rampa do Planalto 
 
A lua de mel entre o Palcio do Planalto e o movimento sindical parece ter chegado ao fim, aps nove anos de governo do Partido dos Trabalhadores. Como num efeito domin, a cada dia, nas ltimas semanas, novas categorias de servidores federais cruzavam os braos ou entravam em operao-padro por reajustes salariais. A greve do funcionalismo federal se alastrou pelo Pas, como no se via desde o governo de Fernando Henrique Cardoso. At a sexta-feira 10, cerca de 300 mil profissionais de 30 categorias, como agentes da PF, professores universitrios e fiscais da Receita, integravam o movimento, que j provocou longas esperas nos aeroportos, filas de carros em rodovias e mercadorias presas nos portos. Numa demonstrao que no pretende abrir mo da austeridade fiscal num ano de dificuldades econmicas, a presidenta Dilma Rousseff resolveu endurecer o jogo. Cortou o ponto de grevistas, ameaou substitu-los por outros profissionais e ingressou na Justia para a manuteno de servios essenciais, conforme determina a legislao. No  normal parar de trabalhar e ganhar por isso, disse a ministra do Planejamento, Miriam Belchior.
 
As medidas acirraram ainda mais os nimos dos sindicalistas. Um dos pilares tradicionais do PT, a Central nica dos Trabalhadores criticou a deciso do governo. A CUT repudia veementemente a publicao do Decreto Governamental 7777 que prev a substituio dos servidores pblicos federais, assinalou uma nota da entidade. Reprimir manifestaes legtimas  aplicar o projeto que ns derrotamos nas urnas, acusou a CUT. Manifestaes contrrias  presidenta e a ministros, declaraes inflamadas de dirigentes sindicais e as sucessivas adeses  greve por parte de sindicatos filiados  CUT aumentam a preocupao do Planalto, que comeou a acenar com uma mudana na linha de negociaes. Na quinta-feira 9, por fim, o governo reconheceu a necessidade de abrir os cofres. Mas quer fazer isso com o menor impacto possvel nas contas, oferecendo reajustes parcelados e por categoria. Desse modo, o Planalto acredita que pode desarticular o movimento grevista.

ANTIGOS PARCEIROS - Servidores ligados  CUT protestam contra o governo e garantem negociao
 
Dirigentes do PT dizem que o governo perdeu o termmetro do meio sindical por ter desarticulado um aparato que muito serviu ao ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, mantendo-o sempre informado sobre os humores dos trabalhadores e os riscos das paralisaes. Com sua larga experincia nas organizaes dos trabalhadores, Lula havia nomeado uma srie de ex-dirigentes da Central nica dos Trabalhadores para cargos comissionados. Com contracheques do Poder Executivo, esses novos funcionrios tinham por funo trabalhar junto a sindicatos estratgicos, como de petroleiros, de funcionrios das obras do Programa de Acelerao do Crescimento (PAC) e de servidores pblicos. Os olheiros de Lula tratavam de diagnosticar eventuais decises contrrias aos interesses do governo federal e tentavam contorn-las junto s bases. Para isso, tinham trnsito facilitado nas principais salas do Executivo federal. Quando assumiu a presidncia, Dilma dispensou essa gente.
 
Um certo distanciamento das representaes de funcionrios pblicos federais ligados  CUT e da prpria central em relao ao governo federal tambm atende a uma necessidade poltica do meio sindical. Desde a chegada do PT ao Palcio do Planalto, a Central nica dos Trabalhadores, a maior da Amrica Latina, acumula sucessiva perda de representatividade entre os servidores nacionais. Por ser uma espcie de brao do Partido dos Trabalhadores, a sua autonomia em defesa da categoria passou a ser questionada pelas bases que, em muitos casos, migraram para a Central Sindical e Popular  Coordenao Nacional de Lutas (CSP-Conlutas), ligada a legendas de espectro mais  esquerda, como PSTU e PSOL. Na greve atual, por exemplo, os sindicatos que representam os profissionais de educao, com maior adeso na paralisao, so filiados  CSP-Conlutas. Em um cenrio como esse, marcar uma posio para a CUT trata-se de uma questo de sobrevivncia.  Para Dilma, trata-se de manter o governo funcionando, sem estourar, no entanto, as contas pblicas.


4. OS ESCOLHIDOS DE LULA

Liberado pelos mdicos para participar da campanha, o ex-presidente elege seus candidatos preferenciais e vai atuar apenas em So Paulo, Belo Horizonte, no Recife e em So Bernardo
Alan Rodrigues 

PALANQUE ELETRNICO - Na quarta-feira 8, o ex-presidente Lula gravou imagens para o primeiro programa na tev de Fernando Haddad
 
Na ltima semana, o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, que vinha se resguardando da atividade eleitoral por ordens mdicas, ganhou o sinal positivo para entrar de corpo e alma na campanha. Ele pode subir em um palanque e ficar falando por 24 horas, atestou o cardiologista Roberto Kalil Filho. A liberao de Lula foi comemorada efusivamente pelos petistas e aliados de norte a sul do Pas. Afinal, desde o incio da campanha os planos petistas para as eleies municipais estavam associados  recuperao de Lula e  sua presena nos palanques. Nesse primeiro momento, porm, o ex-presidente ir frustrar a maioria dos candidatos interessados em t-lo como cabo eleitoral. Lula decidiu restringir sua presena fsica a quatro cidades: So Paulo, Belo Horizonte, Recife e So Bernardo do Campo. Ou seja, os escolhidos do ex-presidente so os candidatos do PT Fernando Haddad, Patrus Ananias, Humberto Costa e Luiz Marinho. Estvamos todos rezando para que esse dia chegasse logo, entusiasma-se Fernando Haddad, candidato do PT  Prefeitura de So Paulo, cuja campanha at agora no deslanchou.
 
O critrio definido por Lula para se jogar na campanha desses municpios,  exceo da capital paulista,  frear o crescimento do PSB, potencial adversrio de Dilma Rousseff em 2014. J em So Paulo, o objetivo de Lula e do PT  triunfar num tradicional reduto do PSDB. Para isso, o ex-presidente entra em cena num momento em que Haddad busca ganhar flego na disputa e altera sua estratgia eleitoral forado por trs fatores externos: a prpria recuperao de Lula, a ausncia de Marta Suplicy e a deciso de Dilma Rousseff de no entrar na campanha agora. Nos primeiros programas do horrio eleitoral gratuito, que comea na prxima semana, a ideia do marqueteiro Joo Santana  apresent-lo como um poltico com experincia em polticas pblicas. Alm de reforar a ligao de Haddad com Lula, o programa tambm ir mostrar o candidato como algum capaz de promover as mudanas almejadas pelos paulistanos. Assim, o PT espera finalmente alcanar os dois dgitos nas pesquisas eleitorais.
 
PRIORIDADES - As eleies de Patrus Ananias ( esq.), em Belo Horizonte, e de Humberto Costa, no Recife, so consideradas estratgicas por Lula
 
Os nmeros mostram que o PT tem motivos para estar otimista com a entrada de Lula na campanha. Somente na capital paulista, onde o PT amarga uma quarta colocao, com 6% das intenes de votos, contra 26% de Jos Serra (PSDB), que ocupa o primeiro lugar, o Ibope mostra que 40% dos eleitores declararam que votaro, com certeza, no candidato indicado pelo ex-presidente. Nas outras capitais em que Lula ir participar da eleio, a capacidade de transferncia de votos do ex-presidente tambm  considerada alta. Em Belo Horizonte, o embate promete bons lances. A prioridade na eleio mineira deve-se ao fato de que l o presidencivel do PSDB, senador Acio Neves, montou uma trincheira ao lado dos socialistas para derrotar o PT de olho nas eleies de 2014. Portanto, a vitria do petista Patrus Ananias sobre Mrcio Lacerda (PSB)  considerada fundamental para as pretenses petistas. A mesma lgica adotada para a campanha mineira serve para justificar a presena de Lula na eleio da capital pernambucana. No Recife, depois de uma briga entre socialistas e petistas, o governador Eduardo Campos (PSB), outro presidencivel, resolveu romper com o PT e lanou seu ex-secretrio de desenvolvimento econmico, Geraldo Jnior, contra o senador Humberto Costa do PT.
 
A reeleio do petista Luiz Marinho na prefeitura paulista de So Bernardo do Campo ser a outra prioridade de Lula. No bero do PT, a participao de Lula na campanha municipal tem dois objetivos muito claros. O primeiro  turbinar o nome de Luiz Marinho, que  o candidato do corao de Lula para concorrer ao governo do Estado em 2014. O outro motivo  quase de ordem pessoal. O filho de Lula, Marcos Cludio Lula da Silva, disputa uma cadeira na Cmara dos Vereadores. 

APOSTA - Luiz Marinho  o candidato do corao de Lula ao governo de So Paulo


5. O ELO ENTRE DIRCEU E VALRIO

Como vive a ex-mulher de Jos Dirceu Maria ngela Saragoa, que, segundo o Ministrio Pblico, representa a ligao entre o ex-ministro da Casa Civil e o publicitrio Marcos Valrio
por Izabelle Torres 

LIGAO - Apartamento de Maria ngela Saragoa, em So Paulo, foi adquirido depois que Marcos Valrio, para agradar a Jos Dirceu, negociou um emprstimo junto ao Banco Rural
 
Os argumentos apresentados pela defesa dos rus no processo do mensalo na semana passada fizeram ressurgir uma personagem esquecida nos ltimos anos, cuja importncia no caso vinha sendo subestimada por advogados e pelo prprio Ministrio Pblico Federal. A psicloga Maria ngela da Silva Saragoa  uma das trs ex-mulheres de Jos Dirceu e o principal elo entre ele, o publicitrio Marcos Valrio e o ncleo operacional do esquema.  com base nas relaes que ela manteve com alguns dos acusados que o procurador-geral da Repblica, Roberto Gurgel, sustenta a tese de que o ex-ministro da Casa Civil comandava a quadrilha de mensaleiros e tirava vantagens pessoais. Foi para Maria ngela Saragoa que Marcos Valrio articulou, em 2003, um emprstimo bastante vantajoso junto ao Banco Rural para que ela pudesse comprar um apartamento no bairro de Perdizes, em So Paulo. Os termos do financiamento foram negociados por Valrio com a cpula da instituio, cujos dirigentes tambm so rus no processo. Usando sua influncia, o publicitrio mineiro ainda arrumou um emprego no banco BMG para ajud-la a pagar as prestaes do imvel. Para mostrar como e em que circunstncias essa personagem central da acusao vive hoje, a reportagem de ISTO reconstituiu os passos de Maria ngela desde que ela foi levada para o epicentro do escndalo.
 
Embora seja discreta, avessa a badalaes e aparies pblicas, a ex-mulher de Dirceu no se preocupou em se livrar do imvel que, na avaliao do Ministrio Pblico, representa a principal ligao de Dirceu com Valrio. Conforme verificou ISTO, Maria ngela mora at hoje no apartamento de Perdizes, na capital paulista, de 110 metros quadrados. O Banco Rural afirma que o financiamento de R$ 42 mil em 36 parcelas foi quitado em 18 de dezembro de 2006. No entanto, de acordo com a escritura do imvel, a quitao teria ocorrido apenas em maio deste ano. At 2008, ela amortizava as prestaes com o salrio de R$ 3,2 mil que recebia no BMG como funcionria do setor de recursos humanos.

ELE NEGA - Advogado de Dirceu, Jos Luiz de Oliveira diz que seu cliente no sabia do emprstimo
 
Demitida do banco naquele ano, Maria ngela teve que voltar a atender como psicloga para garantir o seu sustento. Retornou tambm ao emprego na Universidade Federal de So Paulo, onde faz parte do quadro de funcionrios desde a dcada de 80. De acordo com um funcionrio do BMG em So Paulo, a sada de Maria ngela comeou a ser desenhada logo depois que o Supremo recebeu a denncia do mensalo, em agosto de 2007. Segundo o ex-colega, a presena da psicloga tornou o ambiente de trabalho insustentvel e dificultava o distanciamento do BMG do escndalo. Todo mundo concordava que ela no poderia mais ser funcionria da instituio. At porque ela raramente trabalhava, relata o bancrio.
 
Na Universidade Federal de So Paulo, a ex-mulher de Dirceu recebe atualmente salrio bruto de R$ 8,9 mil, mas no aparece para dar expediente. No setor de recursos humanos e treinamento, onde oficialmente est lotada, ningum a conhece ou consegue localiz-la na lista de servidores. Maria ngela diz que est licenciada, e agora trabalha em um centro de sade no bairro de Pinheiros, em So Paulo, onde atende como psicloga portadores de HIV. O salrio de funcionria pblica d a ela um padro de vida de classe mdia, mas no atende a todos os seus desejos. H trs anos, Jos Dirceu precisou ajud-la a trocar de carro e frequentemente contribui no pagamento das suas contas.

Amigos prximos informam que o ex-ministro da Casa Civil ainda nutre um grande carinho pela ex-mulher. Ela foi casada com Jos Dirceu na dcada de 80 e estava com ele em plena campanha da Constituinte. Apesar da temperatura poltica da poca, poucos companheiros de partido do ex-ministro a conhecem de fato. Segundo um deles, ela evitava comparecer s atividades partidrias e passou muito tempo se dedicando a um tratamento de fertilizao realizado em Cuba. Logo depois do nascimento da filha, Joana, o casal se separou. Mesmo depois da separao, no entanto, os dois ainda mantiveram uma relao de proximidade e amizade. Quando foi procurada pela reportagem, ela recorreu imediatamente ao ex-marido para perguntar sobre como deveria se comportar. Foi orientada ento a manter-se em silncio para no causar transtornos e atrapalhar a atuao dos seus advogados. Mas, diferentemente do seu comportamento atual, em 2006, Maria ngela no se calou. E suas declaraes levaram  demisso de Dirceu da Casa Civil.
 
Em depoimento dado  Polcia Federal em 2006, Maria ngela contou que foi procurada pelo publicitrio Marcos Valrio alguns dias depois de ouvir do ex-marido que no poderia ajud-la na aquisio de um imvel maior. Foi ento que Valrio no apenas ofereceu-lhe o emprstimo como apresentou o scio Rogrio Tolentino como o comprador do seu apartamento por R$ 115 mil. Tolentino adquiriu o bem sem nunca t-lo visitado e, mais tarde, disse que o fez para agradar a Jos Dirceu. Ao longo das diligncias e depoimentos, descobriu-se tambm que o verdadeiro comprador do imvel de Maria ngela era o ento presidente do Banco Popular, Ivan Guimares, que no queria aparecer nas negociaes.

Apesar de insistir em que tudo foi feito sem o conhecimento do seu ex-marido, tem sido difcil para a defesa de Dirceu convencer a acusao e alguns ministros. Para o relator, Joaquim Barbosa, os favores oferecidos a ela mostram a preocupao que os integrantes do esquema tinham em agradar e beneficiar o ento poderoso ministro do governo Lula. As evidncias dessas relaes so to inquestionveis que o experiente advogado de Dirceu, Jos Luiz de Oliveira, dedicou menos de um minuto para falar do assunto durante a sustentao oral de uma hora que fez no Supremo Tribunal Federal na semana passada. Ao apresentar os argumentos da defesa aos ministros, ele apenas lembrou o depoimento dado por Maria ngela como testemunha do ex-marido e disse que, como as provas do processo so todas com base em depoimentos, o dela tambm precisa ser considerado. Dirceu no tinha conhecimento nenhum deste fato. A grande prova da ao penal so os depoimentos. E a prova testemunhal  toda no sentido da absolvio, disse ele.
 
A expectativa de Dirceu  com as prximas fases do julgamento, que na quarta-feira entra na etapa decisiva com o incio dos votos dos ministros. A preocupao do ex-homem forte do governo Lula  que a volta dos holofotes  sua ex-companheira deteriore o cenrio que ele acredita estar favorvel por conta da boa atuao da sua defesa. Dirceu sabe que as negociaes entre Maria ngela e os operadores do mensalo so um obstculo  sua tentativa de provar que no era o comandante do maior caso de corrupo da histria recente do Pas.
 
Colaborou Pedro Marcondes de Moura


6. BRASIL CONFIDENCIAL - "DE VOLTA AOS COFRES"
por Marta Salomon 

 muito difcil dinheiro desviado por corrupo voltar aos cofres pblicos. Por isso, entrar para a histria o acordo por meio do qual a Unio vai recuperar o prejuzo do escndalo da construo do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de So Paulo, no final dos anos 90. O empresrio Luiz Estevo acaba de ganhar o aval do Tribunal de Contas da Unio para devolver menos do que R$ 1 bilho, valor da dvida, corrigido pela inflao mais juros. A conta deve ficar prxima de R$ 600 milhes. Senador cassado em 2000, Estevo  rico e quer liberar logo 1.255 imveis bloqueados pela Justia. A negociao dura dois anos.
